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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mitos Urbanos I: o aumento da densidade residencial

A partir de hoje, começo a comentar alguns "mitos urbanos" muito disseminados, que devem ser bem esclarecidos, agora que entramos na reta final do processo de revisão do Plano Diretor.
Começo pelo mito de que estaria havendo aumento da densidade demográfica, devido ao processo de ampliação da verticalização de Santos.
A tabela acima, que elaborei para um artigo, revela o que ocorreu, em termos de densidade demográfica, nas zonas da área insular do Município, entre os Censos de 1980 e 2000.
Fica evidente que, durante o período, a densidade (expressa em habitantes por hectares) caiu na Zona Leste (onde fica a orla) e cresceu nos Morros e Zona Noroeste. No Centro, ela despencou.
Neste intervalo de tempo, não ocorreu qualquer refluxo no processo de verticalização da orla, que ocorre continuamente desde a década de 1950. Ao contrário, a verticalização estendeu-se para o interior da ilha, atingindo bairros como Marapé, Encruzilhada e outros.
Portanto, ao contrário do que o senso comum indica, a verticalização não provoca, necessariamente, aumento da densidade. E consequentemente, não provoca maior demanda por infraestrutura de saneamento básico, como é muito comum afirmarem por aí.
Quando ocorrem problemas de abastecimento d'água ou de extravasamento de esgoto, em ruas verticalizadas, normalmente isto se deve a problemas pontuais na rede, que em alguns locais é muito antiga.
Mas porque a densidade caiu na orla, se foram construídos mais apartamentos?
Ora, o fenômeno que ocorreu em Santos, também ocorreu em várias metrópoles brasileiras. O tipo de verticalização, que vem se desenvolvendo na Zona Leste da cidade, é de um padrão de renda mais elevado. Neste tipo de verticalização, os domicílios tendem a ter menos moradores ou a ficar desocupados por longo período. As famílias de renda mais alta são menores, e muitas unidades são adquiridas para investimento. Além disso, a maior concentração de renda nestes bairros induz a formação de uma rede de comércio e serviços, que pouco a pouco ocupa as residências horizontais dessas áreas.
Este processo de verticalização provoca maior valorização dos imóveis (principalmente de alugueis) e afugenta as famílias de menor renda, para outros bairros ou municípios. Novas famílias de menor renda (jovens casais), que se formam nas áreas verticalizadas desta forma ou fora delas, também não conseguem nelas se fixar.
Mas estas famílias "expulsas" ou "não fixadas" tendem a manter vínculos sociais (emprego, estudo, consumo, serviços em geral) nas áreas verticalizadas. Isto promove o que os especialistas denominam "deslocamento pendular diário", incrementando o trânsito e transformando a periferia em "cidades-dormitório".
Mas a procura de novas residências mais acessíveis, em bairros mais distantes ou cidades vizinhas, pressiona o mercado imobiliário nestas localizações, provocando nova onda de "expulsão/não-fixação", de famílias ainda mais pobres, para lugares mais distantes e ambientalmente frágeis.
Este é o maior desastre ambiental provocado pelo processo de verticalização, com concentração de renda. Mas é um desastre que as classes mais abastadas não vêm (ou não querem ver), pois fica mais "escondido".
Mas a verticalização também provoca problemas ambientais nas áreas onde há concentração de renda. Por exemplo, o modelo atualmente desenvolvido em Santos é um atentado à iluminação e ventilação naturais, afetando a saúde de moradores, sobretudo de imóveis mais "baixos". Além disso, este modelo afeta a eficiência energética dos edifícios (que demandam mais iluminação e climatização artificiais). E o cada vez mais elevado número de automóveis, que circulam e se abrigam nos bairros verticalizados, amplia a emissão de gases estufa e diminui a eficiência da economia local, em função do aumento dos tempos de viagens.
Portanto, este modelo de verticalização é um modelo a ser combatido pelos que lutam por melhor qualidade de vida na Baixada Santista. Contudo, existem outras formas de verticalizar, que podem ser implementadas em Santos, visando induzir à fixação da população e manutenção dos níveis de densidade, sem tantos impactos ambientais e sociais negativos. Mas isto já é assunto para outro post.

2 comentários:

  1. Mto bom o texto Carriço. tenho divulgado seus textos no twitter. vc usa o twitter? eu tenho tb. Vamos nos seguir...Abs

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  2. Caro professor: Raciocinando sobre seu "post", ilustro com a verticalização que ocorre no bairro da Pompéia. Em menos de 10 anos, subiram quatro prédios apenas no trecho da Euclides/Glicério (uma quadra), com a perspectiva de subirem mais dois neste mesmo trecho.
    Essas construções feitas a rodo, no atropelo da lógica, já levou a ocorrências de acidentes como o despencar de uma pilha de tijolos do 11º andar de um prédio em construção neste mesmo trecho (notícia que não veremos nos jornais - assim como aquela do desmoronamento do muro da faculdade federal em construção na rua Silva Jardim...).
    Coincidentemente, depois da construção destes edifícios, vemos, frequentemente, manilhas estourando e vazando esgoto nas calçadas do Gonzaga e da Pompéia.
    Outra questão que realmente acontece, é que, movidos pela ganância e pelo desejo de ganharem mais com menos, hoje vemos apartamentos de 70 e poucos metros quadrados com três quartos! A qualquer hora, teremos que dormir em pé, amarrados na parede.
    Este tipo de desenvolvimento que desagrega o homem da natureza e aprisiona o homem em pequenas caixas de concreto onde não se vê nem a luz natural ( o sol nasce as 11:25 e se põe as 12:45), me faz ter a convicção absoluta que adoece o ser humano. Certamente este é mais um motivo que está fazendo os consultórios médicos ficarem lotados, não havendo, inclusive, horários para atendimento nos consultórios de psiquiatria de Santos.
    Dalai Lama certa vez disse que não entendia a nossa sociedade e dizendo: vocês perdem a saúde para ganhar dinheiro e depois o gastam para tentar recuperar a saúde.
    Este modelo indubitavelmente levará a nossa sociedade ao colapso, como de fato está levando. A falta de áreas de socialização com a natureza de todas as formas (praia extremamente poluída, orquidário no limbo e pouquíssimas áreas verdes espalhadas pela cidade) faz o homem, muitas vezes inconscientemente, padecer do mal da solidão que consequentemente eleva seu sentimento de tristeza por ansiar, lá no fundo de sua alma, por um mundo que não vê da janela de sua casa e não o sente mais no seu coração.

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