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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Enchente em Franco da Rocha: Sabesp erra, falta com a verdade? Como fiscalizar se os dados oficiais não conferem?

Do Blog da Maria Frô:
Por: @Página2 (encaminhado por mail)
14/01/2011
Disponível em: http://mariafro.com.br/wordpress/?p=22858

A Sabesp não foi pega de surpresa com o volume de águas no sistema Cantareira e foi ‘obrigada’ a inundar Franco da Rocha e Mauá. Na verdade todos sabiam que o índice pluviométrico para região era altíssimo três dias antes de o governo do Estado autorizar a abertura das comportas da represa de Paiva Castro, uma das cinco que compõe o sistema Cantareira. Além disso, números da própria Sabesp desmentem a versão oficial.
De acordo com a Sabesp, a represa Paiva Castro chegou a reter até 145 m³/seg desde a noite de segunda-feira. Seguramos até as 9h do dia 11. Aí tivemos que ampliar a descarga. Começamos a liberar 15 m³/seg até as 15h. Depois, passou para 50 m³/seg e, à meia-noite desta quarta, passamos para 80 m³/seg. Mesmo liberando 80 m3/seg, é importante salientar que a represa não parou de receber água, chegando a 145 m3/seg. Ou seja, isto demonstra claramente o papel importante das represas na retenção das águas. “Não fosse isso, todo este volume iria diretamente para o rio, o que causaria ainda mais problemas para Franco da Rocha”, explicou o diretor da Sabesp para a região metropolitana, Paulo Massato.
O sistema Cantareira é complexo. As primeiras represas, Jaguarí e Jacareí são usadas como captadoras e retentoras de água da Serra da Mantiqueira. Já Paiva Castro é uma represa de passagem. Não serve para captar água, mas para reter um determinado volume para garantir abastecimento à Região Metropolitana de São Paulo. Seu volume sempre fica em torno dos 50%, mesmo em períodos de estiagem.
O Sistema Cantareira ocupa o território de 12 municípios, sendo quatro em Minas Gerais (Camanducaia, Extrema, Itapeva e Sapucaí-Mirim) e oito em São Paulo (Bragança Paulista, Caieiras, Franco da Rocha, Joanópolis, Nazaré Paulista, Mairiporã, Piracaia e Vargem).
No dia 9 de janeiro, domingo, as represas Jaguari e Jacareí tinha 92,79% de volume operacional. Entrava, via afluentes e chuvas na região das represas 62,28m3/s. As duas represas vazavam 1 m3/s para os rios da região (Qjus) e transferiram nenhum volume de água para a represa de Cachoeirinha pelo túnel 7 do sistema (Q T7).
A represa de Cachoeirinha vertia 0,25m3/s para os afluentes da região. Operava a 47,45% de sua capacidade. A represa recebeu 13,15 m3/s de águas pelo sistema natural e enviou 24,23 m3/s para Atibainha, penúltima represa do sistema, pelo túnel 6.
A represa de Paiva Castro operou no domingo com capacidade de 50,88% do total, recebeu 15,93 m3/s de água natural e 11,26 m3/s da represa de Atibainha – que operou com 43,69% da capacidade). Paiva Castro vazou 1 m3/s e enviou 31,10m3/s para estação de tratamento de Santa Inês. (ETSI)
No dia 10, segunda-feira, o volume operacional de Paiva Castro havia caído para 48,67%. Atibainha operava a 45,33% e Cachoeirinha a 46,25%. Nesse dia, Paiva Castro recebeu 7,98m3/s de águas naturais e 21,07m3/s da represa de Atibainha. Saiu da represa 30m3/s para ETSI e 1m3/s para os rios da região.
No dia 11 o cenário mudou radicalmente. Paiva Castro recebeu 49,49 m3/s de água de chuva e 17,93m3/s de Atibainha; Enviou 27,00 m3/s para ETSI. Segundo o gráfico da Sabesp, enviou apenas 1m3/s para os afluentes da região.
Se já se sabia que iria chover pesado entre segunda e terça-feira, o que levou a Sabesp a enviar 39m3/s de Atibainha para Paiva Castro em dois dias? Somado os números, Paiva Castro recebeu 95,98m3/s de água em dois dias. Nos dias 10 e 11 foram tratados 57m3/s em Santa Inês.
Fazendo as contas, a represa de Paiva Castro recebeu no dia 10 +1,95m3/s; no dia 11 houve um acréscimo de 39,42m3/s; 12 +2,63m3/s e hoje (13) -19,16. Ainda segundo os números da Sabesp, dia 12 foi vazado 37,92m3/s e hoje 45,42m3/s.
Para entender o problema, basta considerar que cada 1,13m3/s de água entrando na represa corresponde a 1% do volume da represa. Assim, em dois dias a Sabesp enviou para Paiva Castro 44m% da capacidade da represa – sem contar a chuva. Qual o motivo se Atibainha e Cachoeira estavam com capacidade inferior a 50%?
Outra questão: se a Sabesp “segurou” até a manhã do dia 11 as águas de Paiva Castro, por que enviou nesse dia 17,93m3/s de Atibainha? Isso equivale a 20% da capacidade de Paiva Castro.
Obviamente esses números são baseados nos dados da Sabesp disponíveis no site da empresa. Eles podem estar errados? Sim. Os dados da vazão para os afluentes se mostram incorretos em todos os dias, levando-se em consideração que Atibaia está debaixo d’água desde o início do mês. Além disso, no dia 11, Paiva Castro teria vazado 80m3/s para o afluente que corta Franco da Rocha, mas o dado da Sabesp disponível só mostra um Qjus de 1m3/s.
Então, quem fala a verdade?
Provavelmente ninguém.
A EPTV, filiada da Rede Globo em Campinas, publicou uma matéria em que afirma que “o volume do sistema Cantareira é de 97,5% da sua capacidade total de armazenamento. A última vez que os reservatórios estiveram tão cheios foi em 1999”. Mentira. O próprio site da Sabesp que consta na matéria mostra que no dia 31 de janeiro de 2010 o sistema operava com 101% da capacidade. Além disso, o volume nas cinco represas no dia 11 era de 86,5%.
Ainda de acordo com a ETPV/Globo “na página da Sabesp na internet, onde é possível acompanhar a situação dos mananciais, o nível do reservatório da represa de Jaguari está com 98,91% de sua capacidade. A represa de Cachoeira, com 90,06% e a de Atibainha, com 97,79%”.
Também não é verdade. Mesmo no dia 12, um dia depois da alta recorde no volume de Paiva Castro, Atibainha e Cachoeira permaneciam em torno dos 50% da capacidade.
Se o sistema Cantareira, os números do site da Sabesp não batem com os fornecidos pela própria empresa, mais difícil ainda é fiscalizar o sistema Alto do Tietê, que fornece água para a Zona Leste de São Paulo e é responsável pelas cheias do Jardim Pantanal. A Sabesp não mantém uma página com dados atualizados como no Sistema Cantareira.
Assim, as dúvidas somente se acumulam. A Sabesp errou ao subestimar as chuvas e continuar enviando água para Paiva Castro? Quais os números estão corretos? Ou pior: o governo do Estado de São Paulo tenta evitar que as águas cheguem aos rios e córregos de São Paulo, assoreados desde 2006?

Obs.: O post original possui mapas e figuras importantes para o entendimento da questão

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