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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Flávio Viegas Amoreira: Santos, urbanicídio lento

Um poema de João Cabral toca-me como tratado urbano: "Sevilha é a única cidade que soube crescer sem matar-se. Cresceu do outro lado do rio, crecseu ao redor, conservando puro seu centro, intocável, sem que seus de dentro tenham perdido a intimidade".

Vivemos em Santos em dramático paradoxo: a confusão entre crescimento desordenado e progresso, conurbação desenfreada e desenvolvimento virtuoso. Alguns fatores se alimentam, cúmplices: o avanço predatório da especulação imobiliária e a ausência de planejamento pela municipalidade, a sanha das construtoras e a lentidão reativa da prefeitura para não expor os danos à nossa habitalidade civilizada.

A descaracterização de comunidades pela verticalização sufocantes, o trânsito levando a um apagão viário, a destruição de nosso patrimônio histórico, boêmio e clubístico substituem o balneário por uma Gotham City ou Dubai do brejo. Como se a já breguíssima e repressora Dubai fosse exemplo a quem se pretendia libertária Barcelona.

O arquiteto Guilherme Wisnick faz interessante correlação entre o poder do lucro irrefletido e o proposital anti-planejamento por prefeituras inertes diante da bomba de efeito retardado com consequente inchaço das periferias e a neurastenia omissa da burguesia que deveria questionar essa "crise de crescimento em bolha". Sem infraestrutura para um turismo receptivo com atendimento qualificado, qual será vocação dum peliteiro com um skylineturvado por arquitetura na sua maior parte de estética deplorável encerrando nossa baía como um "piscinão de Ramos" refratário ao acolhimento?

Precisamos duma grande convergência do que ainda resiste: sociedade civil atenta, cabeças pensantes e lideranças à altura do desafio de estar além do crescimento e não refém do caos consentido. Santos exige estadistas visionários, não zeladores que diante da plutocracia fazem a prosaica e passiva manutenção do descalabro.

Temos que estarão na ordem do dia: desenvolvimento autossustentável, logística contra acidentes naturais, reflexão holística e supraideológica de nosso destino à deriva e identidade cultural resgatada. Quem somos, santistas? O que nos dá titularidade de espírito comunitário para nos entendermos como uma Cidade e não um acampamento de cimento desarmado para o futuro? A engenharia do porvir impõe cérebro de criativdade humaníssima:"Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas", é o fator humano, ensina Deleuze, que pode deter a barbárie, o que chamo urbanicídio. "Ninguém pode viver com horizontes estreitos. Uma perspectiva estreita acaba nos afixiando", frase exemplar de Chanel, que poderia ser deleuziana.

De tudo ou pouco se tiram galáxias de soluções. Que Santos queremos? A saída além da Imigrantes, está no pensamento inquietante: intuir grande e profundo. O espaço social privatizado pela lógica dos guetos: os shopping centers, o condomínio fechado são paradigmas do que o maior pensador de nossos tempor líquidos, Zygmunt Bauman, define como o "indivíduo sitiado". Em Santos, não fosse nossa topografia de languidez marinha, seríamos tão somente como Osasco ou Guarulhos, anticidades ou antessalas da megalópole.

A aparência futurista dos espigões é mais retrógada do que urbanidade das vilas: o conceito de convivência foi substituído por entulhar gente. Alternativa? Um pacto de governança criativa para um consenso entre o santista e seu território: o resgate da identidade santista, agora múltipla por poderosas demandas, mas ainda assim santista ao cubo com vocação atlântica.

Artigo de Flávio Viegas Amoreira, publicado em A Tribuna.

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