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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quem compra os apartamentos nos espigões de Santos?

Em matéria publicada na edição de ontem, à página A3 do jornal A Tribuna, com o título "Nos gigantes, gente da Cidade", o jornal tenta desvendar uma das grandes questões do momento, quando se discute o famigerado "boom" imobiliário santista.
As informações contidas na reportagem, não me surpreendem, mas precisam ser entendidas de forma adequada, pois podem facilmente levar a uma interpretação distorcida.
Em primeiro lugar, há anos venho participando de discussões sobre a questão, e o que ouço de gente do mercado e de pesquisadores do assunto, como o professor João Meyer (FAU USP), é de que se trata de lenda urbana a versão, segundo a qual, a maioria dos compradores dos novos imóveis, em torres residenciais, seriam famílias de outras cidades, desejosas de aproveitar a velhice por aqui, ou de lucrar com o desenvolvimento que vem com o pré-sal. 
Na verdade, trata-se de uma estratégia do mercado, para gerar expectativa positiva, com relação aos empreendimentos e à própria cidade. Aliás, isto está escancarado em outra matéria, sobre assunto correlato, publicada hoje (falo sobre ela a seguir) em que um profissional do setor compara Santos com Miami.
Questões metodológicas à parte, pois o levantamento apresentado pela reportagem mencionada não possui rigor científico, um dos pontos que podem suscitar confusão, é quanto ao percentual de famílias que adquirem os imóveis para investimento. 
Neste aspecto, destaco o fato de que tanto famílias de Santos, como de outras cidades, podem adquirir imóveis com vistas a obter bons rendimentos. Portanto, estas famílias estão localizadas tanto na faixa dos 70% de compradores locais, quanto nos restantes 30%.
O mais importante é que o santista perceba que este tipo de família, como o professor Meyer já demonstrou, está numa faixa de renda em que menos se necessita de imóveis para residir, pois é uma faixa que produz menos novos domicílios anualmente (ver Censo 2000, IBGE).
E é justamente por isto, que a matéria revela o fato de que os chamados imóveis populares "vendem que nem água". Isto ocorre, porque nesta faixa (classe C) e na de baixa renda, ocorre a maior produção de novos domicílios anualmente.
É também aí, que pode haver uma má interpretação da reportagem. O fato de que o mercado vende tudo o que produz na faixa popular, não significa que esta faixa de famílias esteja sendo adequadamente atendida. Ao contrário, esta faixa tem imensa dificuldade para encontrar crédito imobiliário, pois o Minha Casa Minha Vida não decola em Santos, em função do preço dos terrenos e da falta de uma política urbana focada nesta redução.
Por outro lado, as classes D e E, também são mal atendidas, pois a velocidade de programas estatais como PAC e FNHIS, é muito lenta.
Estes são os verdadeiros nós da questão imobiliária em Santos e municípios vizinhos, que são afetados pela migração de famílias que não conseguem adquirir ou alugar residências em Santos.
Por isso, há tempos elegi o enfrentamento deste gargalo, como a questão prioritária para se discutir agora, no âmbito da revisão do Plano Diretor.

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