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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para além das lixeiras

Ainda acerca da implantação do sistema de caçambas de lixo, no Centro de Santos, que abordei em post de ontem, publico o artigo abaixo, que retirei do site Pré-Univesp (disponível aqui). Escrito por Carolina Toneloto, o artigo tem uma abordagem bem interessante, pois avalia o sistema como um todo, o que é essencial para se ter uma boa compreensão de tudo que envolve a questão da reciclagem.

Reciclagem: preocupação antiga, problema novo

Para além das lixeiras, é preciso elaborar estratégias que garantam o consumo consciente e a gestão integrada dos resíduos

Por Carolina Toneloto

15/10/2011

O Brasil produz cerca 195 milhões de kg de lixo ao dia e 55 trilhões de kg de lixo por ano. Cada brasileiro produz, em média, 1,15kg de lixo diariamente, enquanto um europeu produz 1,2kg e um americano quase 2 kg. No mundo, a sua produção diária é de três bilhões de kg. Números aproximados de uma triste contabilidade. Seja jogado na lixeira e levado para aterros sanitários, aterros controlados ou lixões; seja descartado nas ruas, terrenos baldios, nascentes, córregos, rios – o que é jogado fora ocupa muito espaço, formando resíduos que necessitam de tratamento e de destinação adequados, sob pena de contaminar a água, o solo e o ar por muito tempo ainda após o descarte. Para além das lixeiras, é preciso elaborar estratégias que garantam o consumo consciente e a gestão integrada dos resíduos, a fim de diminuir a sua produção e prolongar a utilidade dos materiais descartados.
A discussão sobre o que jogamos fora é antiga. “A preocupação com a recuperação de materiais é milenar. Os metais, principalmente para fins militares, eram refundidos sempre que possível. Diz a tradição que a colossal estátua construída pelo escultor Fídias, na Acrópole de Atenas, consagrada à deusa de mesmo nome, foi feita com o bronze apreendido dos persas na batalha de Maratona”, afirma Emílio Eigenheer, professor adjunto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “No Brasil, uma notícia do Jornal do Commercio, publicada em 1896, informa que os catadores de lixo das ilhas de Sapucaia e do Bom Jesus destinavam os materiais coletados do lixo da cidade do Rio de Janeiro assim: ‘Trapos, vendem às fabricas de papel; garrafas, às ditas de cerveja; ferros e metaes, às fundições; folhas de flandres, aos funileiros; cacos de Lucas e crystaes, às fabricas de vidro’”, completa.
“Uma maior preocupação com a problemática do lixo começou, no entanto, no início na década de 1920, quando alguns países como Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra começaram a recuperar, do lixo, alguns produtos industriais. Basicamente, a reciclagem nasce porque apresenta vantagens econômicas”, comenta o especialista em resíduos sólidos e coordenador-geral da Faccamp (Faculdade Campo Limpo Paulista), Márcio Magera.
O aproveitamento dos resíduos sólidos descartados no lixo tem sido empreendido, de forma mais sistemática, a partir da década de 1970, pelos países mais desenvolvidos. “As iniciativas estão relacionadas ao surgimento de tecnologias de reaproveitamento, bem como do desenvolvimento de um mercado que possibilite o retorno dos materiais ao ciclo de produção, e a uma sociedade atenta aos efeitos nocivos ao ambiente de um descarte excessivo”, explica Maria Scarlet do Carmo, professora da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Ebape/FGV) e técnica de projetos sênior da FGV-Projetos.
Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe) apontam que a coleta seletiva, prática adotada para facilitar a recuperação de materiais, é empregada por aproximadamente 3.205 dos 5.565 municípios brasileiros, em sua maioria nas regiões Sul e Sudeste (veja infográfico). Contudo, como adverte a própria Abrelpe, “é relevante considerar que muitas vezes tais atividades resumem-se na disponibilização de pontos de entrega voluntária à população ou na simples formalização de convênios com cooperativas de catadores”.

Novos conceitos
Bastante popularizados, os processos de coleta seletiva e de reciclagem do lixo compõem um processo mais amplo da administração dos sistemas de limpeza pública – a Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Dispondo de uma variedade de tecnologias para a coleta, tratamento, reinserção dos materiais na cadeia produtiva e sua destinação final, este tipo de gestão conta com a participação da sociedade e propõe a inclusão dos catadores.
Os processos de reciclagem destinam-se a reaproveitar os resíduos como matéria-prima para a elaboração de um novo produto, para reintroduzi-lo na cadeia produtiva. Estes processos minimizam o uso de recursos naturais e diminuem a quantidade de lixo a ser novamente descartado. Papel, vidro, metal e plástico são os exemplos mais comuns de materiais recicláveis.
O termo “reutilização” refere-se a usar um mesmo produto mais do que uma vez, seja ou não na mesma função. Produtos reutilizados também contribuem para a diminuição da quantidade de lixo. Outro conceito presente nas discussões sobre o lixo é o de “preciclagem”: a atitude consciente no ato de consumir. Preciclar é refletir durante a compra, levando para casa apenas o essencial, com vistas à diminuição da produção do lixo e à opção por produtos e embalagens recicláveis ou biodegradáveis (veja reportagem sobre consumo).


Catadores
O tratamento do lixo nos países em desenvolvimento obrigatoriamente contempla a questão dos catadores de materiais recicláveis (veja artigo). “São eles os principais agentes de recuperação de materiais a serem destinados à reciclagem industrial”, afirma Eigenheer.
Além da importância no processo da coleta seletiva e reciclagem dos materiais, os catadores devem ser incluídos economicamente na sociedade. “Não é possível falar em reaproveitamento do lixo sem mencioná-los e sem pensar em estratégias para sua inserção econômica e social, já que, na ausência de empregos, as pessoas passam a catar nas ruas. No Brasil, os catadores quase não sabem o que é a experiência do trabalho formal, mas temos na Argentina um exemplo clássico da relação desemprego/catação”, esclarece Scarlet.
complementa Scarlet. Daí a importância das cooperativas de catadores na organização e valorização desta classe que luta pela autogestão de seu trabalho, e por uma posição garantida junto à cadeia produtiva de reciclagem.

Bons exemplos
Dentre todos os países, a Alemanha é considerada o melhor paradigma em relação ao tratamento de seu lixo. Este modelo preconiza que é tarefa dos municípios coletarem os resíduos sólidos urbanos, tarefa que cada município desempenha a seu modo. O recolhimento dos materiais é feito através da coleta seletiva realizada nas casas e nos estabelecimentos comerciais, e através de pontos de coleta – que podem ser contêineres ou caixas colocadas nas ruas, em áreas designadas. “A Alemanha serviu de modelo para a Comunidade Econômica Europeia e inspirou, no Brasil, a Lei que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos (veja reportagem)”, esclarece Eigenheer.
O nosso país, a propósito, já acumula experiência em alguns processos de reciclagem, ocupando a primeira posição no ranking mundial de reaproveitamento de alumínio: por volta de 94% das latinhas são recicladas. Destaca-se igualmente na reciclagem do papelão, cujo aproveitamento chega a 77%. De embalagens Longa Vida, recicla-se por volta de 50%. A vantagem do alumínio é que ele possui a característica de voltar a seu estado inicial, após passar pelo processo de tratamento. Sua reciclagem economiza, em média, 95% da eletricidade que seria utilizada na produção da primeira lata, a partir da bauxita (mistura natural de óxidos de alumínio). Além disso, o valor da sucata de alumínio é maior do que qualquer outro material reciclável, e crescem as cooperativas de reciclagem de alumínio pelo país.
Dentre as cidades, o exemplo de Curitiba, no Paraná, é emblemático: “através de autarquias, recicla-se perto de 30% da geração de resíduos sólidos domésticos da cidade”, relata Magera. Caminhões recolhem o lixo seco, sem restos orgânicos, para que, desta forma, ele seja vendido a preços competitivos às indústrias de reciclagem. É a coleta seletiva mais barata do país.
E os horizontes tendem a se expandir: “as tecnologias de reciclagem industrial se aperfeiçoam constantemente, buscam eficiência e controle da poluição de seus processos”, reconhece Eigenheer.
Fontes:

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