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terça-feira, 29 de maio de 2012

Quando o patrimônio cultural colocou a cidadania atrás das grades


Nos idos da virada da década de 90 para os anos 2000, um prefeito santista resolveu dar um banho de loja nas praças do centro da cidade, local simbólico e muito querido por todos. Por conta desta iniciativa, o alcaide ficou conhecido como "boa-praça".
Na ocasião, quem ousasse apresentar argumentos contrários às suas obras, era imediatamente classificado como integrante da "Turma do Não", perigoso bando de facínoras mal intencionados, cuja existência colocava em risco a fantástica qualidade de vida usufruída por santistas de todos os quadrantes.
Dentre as intervenções urbanísticas promovidas pelo mencionado prefeito, lembro-me bastante da reforma da Praça dos Andradas, belo logradouro situado no centro e com um valioso conjunto edificado ao seu redor.
O que mais me marcou nesta obra foi a instalação de um gradil ao redor da praça, que ironicamente só livrou do cárcere o imponente edifício da Cadeia Velha, nem tombado pelo Condephaat, órgão responsável pela preservação do patrimônio cultural paulista.
A solução urbanística adotada então, fez-me recordar com angústia o cercamento da Praça da independência, pelo então prefeito Oswaldo Justo, na década de 80.
Desconfio que, no caso da Praça dos Andradas, a real motivação para colocação das grades foi mais uma tentativa de restringir o acesso a ela à noite, quando seus portões eram fechados, do que zelo pelo nosso patrimônio.
Aliás, como em todas as áreas centrais em que não há residências, esta praça fica às moscas durante o período noturno e o ambiente fica realmente perigoso.
Mas, na época, a Prefeitura justificou a colocação do gradil como parte do esforço em reconstituir o aspecto do logradouro à época áurea do Café, quando o Teatro Guarani, outra edificação tombada existente na praça, irradiava cultura para toda a cidade.
Como parte da estratégia de convencimento, imagens foram apresentadas na imprensa, comprovando de forma inequívoca que o logradouro outrora havia sido cercado por um gradil.
Mais de uma década se passou e a falta de manutenção adequada fez com que o cercado, submetido à alta salinidade do litoral, oxidasse irremediavelmente.
A precariedade da situação, aliada a evidente inutilidade do gradil, fez com que comerciantes e frequentadores do local passassem a reclamar pela sua retirada. Desta forma, agora está a Prefeitura removendo-o e atribuindo a ação ao atendimento das solicitações apresentadas. Por outro lado, os recursos investidos na traquitana transformaram-se em ferrugem.
É curioso, mas até o momento não ouvi qualquer manifestação contrária à iniciativa, por parte de órgãos ou de militantes da área de defesa do patrimônio cultural.

Um comentário:

  1. Um dos grandes legados do ex-prefeito foi ter reformado TODAS as praças de Santos !

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