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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O corredor Vasariano no Aparecida

Na segunda-feira passada entrou na Câmara o projeto de Lei Complementar N° 55/2012, de autoria do prefeito, que autoriza o uso do espaço aéreo em áreas públicas de Santos, para a construção de passarelas, ligando empreendimentos privados.
Acerca da questão já me manifestei em diversos posts, dentre os quais sugiro a leitura dos seguintes:
24/8/2011, 29/2/2012, 23/3/2012, 24/5/201230/5/2012 e 17/8/2012.
Neste último contei um pouco da história do Corredor Vasariano, em Florença, cujo percurso apresento acima.
Achei interessante a analogia entre os casos de Florença e de Santos, pois tanto em um, como em outro, subjaz a questão do uso privado do espaço público, como estratégia de classe, para evitar o contato com o povo na rua.
Nos "cinquecento", Cosme I de Medici, Duque de Florença, encomendou ao arquiteto Giorgio Vasari a construção do "corredor",  uma passarela de mais de um quilômetro, ligando o Palácio Velho ao Palácio Pitti (imagem acima), respectivamente a sede do governo à sua residência, por ocasião do casamento de seu filho. Na verdade, havia temor do contato com o povo, descontente com a queda da república, em 1532.
Em Santos, é provável que a iniciativa do prefeito conte com apoio de muita gente, seja pelo receio de tomar chuva, seja pela insegurança dos dias de hoje, em São Paulo.
Mas se em Florença a passarela agora é um belíssimo museu público, em Santos deseja-se privatizar o espaço aéreo de determinadas vias públicas, por um preço discutível.
O projeto estabelece uma forma de cálculo do "aluguel" do espaço aéreo, que pode fazer algum sentido no caso dos empreendimentos portuários, tidos como motivação original da propositura. Mas quando se fala em interligar um shopping center a um conjunto comercial, no bairro Aparecida, como mostra a imagem abaixo, o valor é irrisório, pois não leva em conta a valorização imobiliária que ambos os empreendimentos passariam a ter. Ou seja, uma lei municipal vai transferir renda para quem dinheiro não faz falta .
Quem ler o post de 29/2, vai entender do que estou falando.
Outro aspecto a considerar é a possível generalização desta solução arquitetônica, e seus impactos extremamente deletérios na paisagem urbana de uma cidade moderna, em nada semelhante às milhares de cidades medievais do Velho Continente.
Não duvido da capacidade de nossos arquitetos de apresentar soluções dignas de um Vasari, mas temo pela poluição visual das nossas vias, já gravemente confinadas por monstrengos gigantescos que nos sonegam a visão do céu.
Enfim, no final de seu mandato, a biografia do prefeito poderia passar sem esta.


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