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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O dia em que conheci Oscar

Mirante projetado por Oscar Niemeyer, na Ilha Porchat, em São Vicente. Disponível aqui.
O falecimento do arquiteto Oscar Niemeyer suscitou-me a lembrança do dia em que o conheci pessoalmente. Foi durante o governo do saudoso prefeito David Capistrano, quando eu servia nos quadros do Departamento de Planejamento (Deplan) da Prefeitura de Santos.
Já se vão quase vinte anos e nem mesmo o ano em que se realizou o encontro consigo me recordar ao certo. Mas foi provavelmente em 1994 ou 1995.
Lembro-me que em uma manhã estava envolvido com meus afazeres na sala do Deplan, quando o telefone tocou. Do outro lado da linha a voz serena de David me fez um convite enigmático: "Carriço você quer almoçar comigo, hoje, aqui no gabinete?".
Tentei puxar assunto e descobrir do que se tratava, mas David foi evasivo  Com a voz marota, o prefeito se despediu e deixou o suspense no ar.
Na hora combinada, entrei na sala de reuniões do gabinete do chefe do Executivo, no primeiro andar do paço municipal, da Praça Mauá. De cara perdi a voz. Do lado esquerdo da mesa, a figura miúda e tranquila de Oscar Niemeyer me cumprimentou.
Meio sem graça retribui e cumprimentei os demais. Estava ali junto com outros colegas arquitetos, mais David e um amigo comum dele e de Oscar, cujo nome não me recordo.
O tema da conversa era a possibilidade de desenvolvimento de um projeto de Oscar, em Santos, o que acabou não acontecendo. Mas eu, um ainda jovem arquiteto, estava mais interessado em observar o que Oscar rabiscava em um papel que havia tomado emprestado de uma pilha no centro da mesa.
Eu pouco falei durante o encontro. Na verdade sentia-me paralisado, entre aqueles dois comunistas maravilhosos, que cada um a seu modo contribuiu decisivamente para transformar o Brasil em um lugar melhor.
No meio da conversa David convidou-nos para comer um prato de camarão do Café Paulista, que ele gostava muito. Minha emoção era tão grande, que esqueci de avisar que sou alérgico a frutos do mar. O resultado é que naquele dia não almocei. Mas confesso que nem fiquei com fome.
Ao final da reunião, todos se levantaram e um dos arquitetos presentes foi mais rápido e pegou os rabiscos de Oscar e enfiou no bolso. Fiquei chateado com minha própria lerdeza, pois havia perdido o registro documental do encontro.
Os anos passam e os detalhes daquela ocasião vão sumindo da minha cabeça. Mas o que resta indelével é a emoção de ter estado, ainda que por algumas horas, próximo a Oscar, um gênio que sabia que a arquitetura não podia transformar as bases da sociedade, mas poderia transformar o mundo em um lugar mais belo e harmonioso para se viver, como nós arquitetos tentamos diariamente.
Evoé camarada Oscar.

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