Pesquisar este blog

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer. Morreu nosso arquiteto maior

Igreja de São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte.
Disponível aqui.

Do site Vitruvius, apresento o primeiro de uma série de artigos escolhidos para analisar a obra de nosso maior arquiteto, falecido ontem.

Oscar Niemeyer

Morreu nosso arquiteto maior

Por Marco do Valle

O arquiteto Oscar Niemeyer nos deixou aos 104 anos. Só isso já contaria muito de sua luta, de seu amor à vida. Como ele mesmo dizia, “a vida é que é importante, não minha arquitetura”.
Niemeyer é o último arquiteto moderno da história da arquitetura internacional. Ao deixar de produzir seu trabalho hoje, superou com sua produção e vitalidade a todos os outros mestres modernos. Sua concepção moderna – baseada na invenção iniciada no contato com Le Corbusier no projeto para o Ministério de Educação e Saúde Pública (1936) e inspirada na elegância clássica e na modernização de Lúcio Costa – levou-o a produzir sua própria arquitetura, inventando seu próprio repertório formal, que foi redesenhando ao longo das décadas. Na verdade, nenhum outro arquiteto nacional produziu um trabalho como o dele, que impulsionou nossa arquitetura para o reconhecimento internacional e, como ele mesmo gostava de dizer, “criou o élan da arquitetura brasileira”.
Um dia, conversando com ele, eu disse que a minha tese sobre o desenvolvimento da forma em seu trabalho foi motivada pela certeza que tinha sobre o papel de sua geração de arquitetos, que soube transformar a arquitetura moderna internacional em arquitetura brasileira. Comentei também que nos anos 1980, quando se posicionaram diante do pós-moderno declarado pela Bienal de Veneza, os arquitetos brasileiros não se saíram tão bem. Niemeyer respondeu algo surpreendente: “não existe arquitetura moderna brasileira”. Aquilo me pareceu um teste e lógico que era! Era impressionante ver Niemeyer argumentar e instigar o interlocutor com sua inteligência e como liderava com suas frases profundas um grupo a seu redor. O desgosto do arquiteto se devia ao fato de sua produção intensa, sem sinais de esgotamento de seu talento, contava com uma oposição crítica ferina. Uma de suas frases prediletas era: “esta é minha arquitetura; vocês façam a de vocês”.
A verdade é que a história arquitetônica de Niemeyer e a história da arquitetura brasileira em determinados momentos se confundem. De fato, ele foi um grande colaborador desta produção nacional, que em vários momentos ganha dimensões internacionais. Nos anos difíceis da segunda guerra, quando na Europa apenas se destruía, Niemeyer construiu uma das pérolas da arquitetura internacional: o Conjunto da Pampulha. Obra de arte maior, a Pampulha é a materialização da maturidade da arquitetura de Oscar Niemeyer, onde, de maneira clássica, confere a cada uma de suas edificações um caráter próprio, ao mesmo tempo em que experimenta e constrói uma linguagem com seu repertório e técnica. O reconhecimento do Conjunto da Pampulha foi imediato e mundial. Naquele momento, o arquiteto que não o conhecesse estava desatualizado sobre o desenvolvimento da arquitetura moderna internacional.
Sua posição política o marcou de forma indelével desde o momento que abrigou Carlos Prestes. Ficou marcada na história e direcionou seu trabalho durante seu exílio na Europa. Por sua posição política, foi impedido de entrar nos Estados Unidos; bem humorado, dizia que periodicamente pedia “visto” para ver se a determinação se mantinha. Em 1947, Oscar Niemeyer foi o principal protagonista do grupo de arquitetos que projetou a sede da Organização das Nações Unidas – a ONU. Ele foi escolhido pelo arquiteto norte-americano Wallace Harisson, líder da equipe e também organizador da equipe responsável pela Feira Mundial de Nova York (1938), onde o Pavilhão do Brasil projetado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa tinha feito um enorme sucesso. Niemeyer pagou alto por sua posição política e, mesmo diante da magnitude do projeto da ONU, sua produção nos Estados Unidos foi interrompida.
Em 1948, o arquiteto fez uma corajosa autocrítica de sua arquitetura como poucos arquitetos fizeram ou farão, revisão que ficou expressa inicialmente na proposta de concisão formal presentes na concepção do projeto do Museu de Arte Moderna (1955) para Caracas na Venezuela. Niemeyer tinha já nos anos 1950 um escritório no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, com uma produção arquitetônica numerosa para o país, ficando mais conhecidos os realizados para as cidades de São Paulo e Belo Horizonte. Os edifícios Copan e Niemeyer tornaram-se ícones que identificam a paisagem urbana destas cidades. Uma megaestrutura no centro de São Paulo, o Copan tem na sua curva em forma de “S” uma presença que não pode ser despercebida.
No auge de suas construções, Niemeyer abandona seus escritórios para ir construir a nova Capital, que Juscelino Kubitscheck iria tirar dos sonhos. Não teve dúvidas sobre o caráter de sua participação: definiu que não faria o projeto urbanístico da cidade e trabalhou como funcionário, deixando de ganhar muito. Atitude condizente com sua vida, marcada pela ética e pela honestidade (é bom frisar que ele nunca fez proselitismo do que estou dizendo; no máximo, falava que não tinha ficado rico, para falar dos ilícitos dos outros).
Depois do concurso e Lucio Costa escolhido, definiu-se uma velha parceria e ambos souberam definir um imaginário moderno para o povo brasileiro. Lucio Costa fez de Brasília uma experiência fenomenológica, que por semelhantes caminhos percorreu nossa arte contemporânea; Niemeyer trabalhou nela suas formas clássicas, as colunatas e a hierarquia de funções. A nova capital Brasília levou a arquitetura brasileira ao conhecimento do mundo e, anos depois, em visita a Brasília, Le Corbusier afirma ao subir a rampa do Congresso Nacional: “aqui tem invenção”.
Reconhecido internacionalmente, Niemeyer mantinha suas posições políticas e sua arquitetura em plena produção. Ao ver seu projeto para o Aeroporto de Brasília recusado pelo governo militar, ele entendeu o sinal e o desconforto aumentou. Contudo, no momento de seu exílio fez do castigo uma oportunidade e soube desenvolver sua arquitetura internacionalmente. Inteligentemente, Niemeyer levava em conta a cultura e o imaginário dos países para o qual suas obras estavam sendo concebidas. Um exemplo disso são os arcos reinventados para os italianos na sede da Editora Mondadori, a concha para os franceses na Bolsa do Trabalho em Bobigny e o vulcão para o Centro Cultural de Le Havre, os minaretes em forma das colunas do Palácio do Planalto para a Mesquita nos Emirados Árabes. Em seu retorno ao Brasil quando a arquitetura pós-moderna estava ditando moda e produzindo prédios com frontões historicistas, Niemeyer voltou, no Memorial da América Latina, aos arcos de sua própria arquitetura, incorporando novas questões estruturais.
Niemeyer era um bom leitor, olhou os clássicos, leu Sartre. Era também um bom escritor e desenvolveu uma espécie de autobiografia, sem dar esse nome. Niemeyer descrevia sua vida com detalhes emocionais e quem leu pôde mergulhar em uma narrativa fruto de um coração sensível e amoroso. Em seu texto, era um brasileiro de formação clássica. São histórias que traçam uma vida com suas marcas e enfrentamentos, mas com a capacidade de transcender a condição pessoal e se elevar a testemunho da história do Brasil; são histórias de quem viveu nos bastidores a mudança da capital do país. Sua longevidade e sua participação ativa na vida brasileira podem ser explicadas por uma simples conta matemática: o Brasil tem 500 anos e o arquiteto Oscar Niemeyer morreu a escassos 10 dias de completar 105 anos.
Ele viveu e atuou ativamente até o último momento. Ele também sempre teve consciência que com arquitetura não se faz revolução ou mudança social. Sempre denunciou a desigualdade social no Brasil, tão intensa e profunda em seus déficits em saúde e educação que hoje parece intransponível. Niemeyer era um utopista e um crítico das condições de vida no Brasil. Falava disso com enorme melancolia. Um dia, comentando o pouco caso do Brasil frente a desigualdade social, ele me disse: “Eles não vão fazer nada”.
Minha geração acompanhou a anistia política e o retorno de professores universitários, artistas e arquitetos. Dentre eles estava Oscar Niemeyer. A discussão sobre o destino de nossa arquitetura, que se arrastava desde o final dos anos 1960, ganhou um alento no início dos anos 1980, com o retorno dos exilados. Para nós, que estávamos na escola de arquitetura neste período, foi um momento marcante. Eles voltaram com toda vontade de trabalhar em sua terra. Neste período fui aluno de Rodrigo Lefèvre e podíamos comungar com os recém-chegados o retorno e a disposição para o recomeço. O retorno de Niemeyer foi cheio de aparições públicas em palestras onde milhares de estudantes se sentavam para desenhar e ouvi-lo. Logo após, ele atendia pacientemente a uma fila de estudantes para um desenho e um autógrafo. Ficava evidente ver sua alegria e ao mesmo tempo seu compromisso com as questões pertinentes à arquitetura de seu país neste recomeço. Lembro, por fim, de seu empenho ao lado de Darcy Ribeiro na construção dos CIEPS, promovido pelo governo de Leonel Brizola no Estado do Rio de Janeiro. Niemeyer se empenhou nestes projetos e na construção da passarela do samba, o “Sambódromo”, como ficou popularmente conhecido, fato comum em suas obras.
Poderia falar muito mais deste nosso arquiteto maior, mas prefiro agradecer ter sido tocado por sua arquitetura e seu carisma, como muitos de minha geração, e ter aprendido arquitetura a partir da dele. Procurar desvendar seus procedimentos de criação da forma foi para mim um caminho ao conhecimento e compreensão da arte, da arquitetura e do Brasil. Niemeyer ensinava sempre. Mostrava um caminho com sinceridade. Educava com sua experiência política e arquitetônica. Sabia falar com todos, com enorme sensibilidade comunicativa. Desejou um dia ser professor, mas os caminhos o desviaram; contudo – como disse –, não abandonou o ensino. Oscar Niemeyer, ao lado de Lucio Costa, criou um imaginário para o Brasil, preservou seu patrimônio, construiu sua identidade.
A arquitetura brasileira está em luto pela morte de nosso arquiteto maior. As mais de 500 obras significativas para a arquitetura nacional e internacional produzidas por Niemeyer são testemunhas e legado deste homem brasileiro, inteligente, gentil, sensível e trabalhador. Contudo, só isso não explica sua personalidade, sua importância, seu protagonismo. É preciso dizer: morreu o gênio Oscar Niemeyer.
sobre o autor
Marco do Valle, arquiteto e artista plástico, é professor do Instituto de Artes da Unicamp e autor da tese de doutorado Desenvolvimento da forma e procedimentos de projeto na arquitetura de Oscar Niemeyer (1935-1998), orientada por Sylvio Barros Sawaya, e defendida em 2000. Foi assessor de Antônio Carlos Santos (Toninho), prefeito de Campinas, e responsável pelos contatos com o arquiteto Oscar Niemeyer durante a elaboração de projeto não construído em Campinas.
Leia o original aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário