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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Raquel Rolnik: Por uma agenda de mobilidade urbana em nossas cidades

Do blog da Raquel Rolnik, uma excelente crítica daquilo que a urbanista denomina "modelo rodoviarista de mobilidade voltada para o automóvel".
Boa leitura!

Por uma agenda de mobilidade urbana em nossas cidades

A redução da tarifa do transporte público em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras cidades é, em primeiro lugar, uma vitória das mobilizações nas ruas. Porém, este é apenas um primeiro passo da grande agenda que precisamos enfrentar na discussão da mobilidade e do direito à cidade no país. Afinal de contas, não estamos falando apenas de centavos.

De acordo com a Folha Online, cerca de 90 manifestações acontecem hoje  (20/6) em todo o país, mostrando que as reivindicações não se resumem a 10, 20 ou 30 centavos, mas ao direito à cidade, à liberdade de expressão e manifestação, ao desejo da população de participar das decisões relacionadas ao lugar em que vivemos, e ao repúdio em relação às formas de representação política que temos. Não por acaso a pauta do transporte é um dos eixos centrais das manifestações e foi o estopim da revolta. Há décadas temos um transporte coletivo caro, ineficiente e de péssima qualidade em todo o país. Essa é, portanto, uma grande oportunidade de avançarmos na pauta da mobilidade urbana como elemento fundamental do direito à cidade.

Duas dimensões importantes se impõem neste momento: em primeiro lugar, abrir a caixa preta dos custos do transporte público, revisar custos e contratos, e promover de forma transparente o debate público sobre as regras dos contratos de concessão. Afinal, é notório que, historicamente, concessionárias do transporte público de ônibus têm envolvimento com práticas de cartelização, de desvios de recursos, de controle político de câmaras municipais etc. Enfim, estamos falando da necessidade de enfrentar interesses que têm nos impedido de efetivar o direito à cidade para todos.

A segunda dimensão para avançar nessa agenda é a ruptura com o projeto de mobilidade que tem definido o desenvolvimento de nossas cidades: a lógica do modelo rodoviarista de mobilidade voltada para o automóvel e seu suporte viário, desprezando o transporte coletivo e formas não motorizadas, como a bicicleta, e os pedestres. É hora de construir uma política de mobilidade includente, baseada na priorização do transporte coletivo, e também de pedestres e ciclistas, com decisões tomadas de forma participativa. Aliás, os investimentos mais recentes em mobilidade foram voltados para a Copa do Mundo e são muito discutíveis do ponto de vista das prioridades.

No caso de São Paulo, tanto o governador Geraldo Alckmin como o prefeito Fernando Haddad mencionaram ontem na coletiva de imprensa que a revogação do aumento da tarifa significa um sacrifício nas contas públicas e que seria necessário cortar investimentos de outras áreas para viabilizar a decisão. Independente das novas negociações com as empresas de ônibus, a prefeitura já tem condições de tomar decisões que vão no sentido dessa ruptura. Uma sugestão, por exemplo, é desistir de construir o túnel da Avenida Água Espraiada, que custa mais de R$ 2,5 bilhões, já que essa não é uma prioridade para a cidade do ponto de vista de um novo modelo de mobilidade.

Nossas cidades estão sem dúvida vivendo um momento histórico. Estamos diante de uma oportunidade única de começar a reverter o atraso da nossa política urbana. Com a mobilização nas ruas e a revogação do aumento da tarifa, em São Paulo e em outras cidades, já demos o primeiro passo. Agora é preciso avançar e aprofundar esta agenda.

* Publicado originalmente no Yahoo!Blogs.


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