Pesquisar este blog

sábado, 13 de novembro de 2010

Santos, o Censo 2010 e o telescópio de Galileu


O artigo intitulado “Santos a encolher”, escrito pelo professor Alcindo Gonçalves, publicado na coluna Tribuna Livre, edição de hoje de A Tribuna, fez-me lembrar do artigo “Brecht e o Plano Diretor”, do professor Flávio Villaça, acerca da peça “A vida de Galileu”, escrita pelo dramaturgo alemão. Neste trabalho, Villaça brilhantemente critica o uso das ideias para a preservação do status quo na área de planejamento urbano.
Villaça relata um trecho da peça, passado em Florença, na casa de Galileu, onde está seu telescópio, com o qual o astrônomo acaba de descobrir três estrelas, que em homenagem à casa de Médici batizara de Medicéia. Em seguida, Galileu recebe a visita de três sábios, professores da universidade local, e que representam o saber oficial. Como demonstra a peça, os sábios recusam-se a admitir a existência dos astros, mesmo diante da insistência de Galileu para que estes os observassem pelo telescópio. Os sábios negam-se a usar o aparelho, pois a descoberta questionava a astronomia ptolomaica, colocando em cheque o poder religioso e o poder político, representado pela casa de Médici. Villaça, com acerto, ressalta que todo este “saber” conservador “é ideia pura, autônoma, que se nutre de si própria e que não tem qualquer compromisso com a realidade empírica”.
Em seu artigo, Alcindo afirma que duvida “bastante das explicações que apontam a diminuição da população da Cidade através de teorias de migração regional (mudança de pessoas de Santos para outras cidades vizinhas)”. Bem, em seu questionário completo, no Censo 2000, o IBGE perguntou aos entrevistados em que cidades residiram nos últimos cinco anos. Com base nestas respostas, o pesquisador Alberto Jakob, do Núcleo de Estudos da População (NEPO), da Unicamp, desenvolveu uma série de trabalhos que evidenciam a existência de um vetor de migração interregional e também intrarregional, com origem em Santos, sendo o segundo orientado predominantemente para São Vicente e Praia Grande.
No artigo “As mudanças sócio-espaciais na Ilha de São Vicente nos anos 1990 e a possibilidade de novas regionalizações por meio de análises intra-urbanas”, na página 4, Jakob afirma que “dentre os quase 40 mil migrantes não naturais que deixaram a RMBS [Região Metropolitana da Baixada Santista] com destino ao Estado de São Paulo no período 1995-2000, 58% eram de Santos e São Vicente, sendo 45% de Santos” [grifo meu].
Na página seguinte, Jakob prossegue: “com relação à migração intrametropolitana, a situação fica ainda mais clara, dos perto de 50 mil migrantes, 72% se originaram de Santos e São Vicente, sendo 50% de Santos. E dentre os que chegaram, 11% foram para Santos, 35% para São Vicente e 27% para Praia Grande. Apenas três fluxos respondiam pela metade de toda a migração intrametropolitana de não naturais do município de residência no destino no período 1995-2000: Santos => São Vicente (13 mil migrantes ou 27%), São Vicente => Praia Grande (5.800 ou 11,7%) e Santos => Praia Grande (5.600 ou 11,3%). Assim, Santos expulsava população para seu vizinho São Vicente e para Praia Grande e São Vicente recebia população de Santos e expulsava para Praia Grande no final dos anos 1990” [grifos meus].
O telescópio, ou seja, o artigo completo pode ser acessado em: http://www.abep.nepo.unicamp.br/site_eventos_abep/pdf/abep2004_264.pdf. Recomendo a leitura.

2 comentários:

  1. E eu fico a me perguntar...será que na pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas, da Universidade Santa Cecília (Nese), citada no editorial, na mesma página, nesta mesma edição, sobre o desemprego em Santos, verificou o domicilio anterior da, então, referida 'mão-de-obra de fora'?

    Em sua análise, o editoral considera um índice espantoso que das 180.257 pessoas que atualmente têm trabalho regular em Santos, cerca de 40 mil, ou 22% delas, são de São Vicente. E, ainda, que o percentual da 'mão-de-obra de fora' é, ainda, maior porque os demais municípios da região também têm trabalhadores aqui em Santos.

    Quem sabe, não estariam aí incluidos, parte desta migração intrametropolitana, o que viria só reforçar a redução da população Santista apontada pelo IBOPE.

    É mesmo impressionante...como por aqui as idéias, e pior, de poucos, são utilizadas na preservação do 'status quo'!

    ResponderExcluir
  2. Lu,
    Só se espanta quem não leu os resultados do Censo de 2000 com atenção, ou não se interessa em compreender esta dinâmica demográfica perversa.
    Como afirma Villaça, as idéias têm vida própria e se nutrem delas mesmas, sem qualquer base empírica e muito menos científica.

    ResponderExcluir